jul 092008
 

Imagine a cena, você chega ao aeroporto para pegar um vôo internacional e, no balcão de atendimento, a simpática atendente, ao invés de lhe dar o bilhete de passagem, coloca no seu pulso um objeto semelhante a um relógio, mas sem ponteiros. Um bracelete. E lhe explica que aquilo funciona como seu cartão de embarque e de bagagem: ele contém seus dados pessoais e do seu vôo e serve como um identificador para suas bagagens. No final, de maneira bem trivial, quase disfarçada, ela lhe avisa que aquele dispositivo também poderá lhe dar uma descarga elétrica que o imobilizará por alguns minutos. "Mas somente se o senhor iniciar um ataque terrorista no vôo. Tenha uma boa viagem!" – ela sorri e chama o próximo. E você sai arrastando sua bagagem e processando a informação final: descarga elétrica, terrorista….. Epa! Mas eu não sou terrorista! Pois é… Então é bom deixar isso bem claro pra todo mundo…

Parece delírio, mas não é. O Washington Times publicou uma matéria justamente sobre isso. Com o título "Want some torture with your peanuts?" (algo como "Deseja alguma tortura junto com seus amendoins?") eles falam de um dispositivo chamado Eletronic ID Bracelet ("bracelete de identificação eletrônica") que serviria para identificar o passageiro e suas bagagens, rastreá-lo durante todo o tempo que ele o estiver utilizando e, sob um comando, disparar uma descarga elétrica que provoca imobilização muscular do seu usuário (ele atuaria no estilo de um taser, que já é utilizado por algumas empresas de segurança, polícia e exércitos). E o pior. Aparentemente já existe algum diálogo entre alguns setores do governo dos EUA ("terra da liberdade", alguém ainda leva esse bordão à sério?) e a empresa produtora para a aquisição desse equipamento.

Obviamente existe uma série de implicações contrárias a esse tipo de prática. Primeiro porque ela parte do princípio de que todo mundo é um terrorista em potencial. Segundo porque uma vez que contém seus dados pessoais associados a um GPS (lembre-se que o bracelete tem um rastreador) é uma ofensa a qualquer discussão sobre privacidade. E terceiro, porque é uma idéia imbecil.

Imbecil porque é passível de ser burlada por vários métodos. Começando pela maneira mais óbvia: será que o terrorista não poderia simplesmente cortar o bracelete antes de anunciar o ataque? Ah, mas eles podem fazer um bracelete de aço ou qualquer outro material maleável e resistente a corte, como kevlar. Bom, uma vez que ele vai começar a usar o bracelete antes de entrar no vôo, ou seja, estará livre pelo saguão do aeroporto, nada impede que ele use uma ferramenta qualquer para fazer o corte, emendá-lo para parecer que está íntegro e só soltá-lo depois que entrar no avião. Outra forma é que, como é um dispositivo eletrônico, ele pode ser estudado e poderia ser produzido um equipamento para alterar suas funções. Esse equipamento poderia estar disfarçado de smartphone ou mesmo notebook, que são permitidos de serem levados no vôo. Alías, poderia ser feito algo pior, esse equipamento poderia assumir o controle dos outros braceletes e o feitiço virar contra o feiticeiro, ou seja, os terroristas imobilizarem todos os passageiros e realizar seu ataque sem nenhuma preocupação. Bom, espero que nenhum terrorista em potencial esteja lendo esse artigo…  

Além de ser burlável, é uma idéia perigosa. E se ocorrer alguma pane no controle central ou no bracelete do usuário e começarem a ocorre descargas aleatórias? Ou ainda, como seria a interação desse aparelho com outros que gerem algum campo eletromagnético, como celulares ou notebooks? Não poderia ser disparados acidentalmente?

É incrível como o medo e a paranóia tornam as pessoas peças fáceis de serem manipuladas. E como elas aceitam abrir mãos de direitos básicos em nome da (sensação de) segurança. Qualquer relação com o "Projeto Azeredo" não é mera coincidência. A diferença é que aqui, ao invés da pessoa ficar imobilizada, sua vida digital é que corre o risco de ficar. Coisas do ser humano…

jul 072008
 

Citando chamada publicada pelo Alexandre Oliva no BR-Linux.org:

"Há um projeto de lei tramitando no senado que vai dar muitíssimo trabalho e problema, se for aprovado. O projeto passou na surdina em algumas sessões esvaziadas de comissões do senado, e agora corre o risco de aprovação em plenário.

Pra ter uma idéia do problema, receber spam com conteúdo distribuído sem autorização do titular de direito autoral passa a ser crime, e ter celular ou computador invadido por vírus, que depois se propaga, também. As penas: prisão e multa, nos dois casos."

Como o Alexandre escreve muito melhor do que eu, recomendo que, para obter maiores informações, dêem uma olhada nesse artigo, onde ele dá uma contextualizada sobre sua opinião acerca do projeto de lei e cita outros artigos sobre o assunto por ele produzidos.

Além disso, existe duas petições contrárias a esse projeto. Uma produzida pela SaferNet:

http://www.safernet.org.br/petitioner/projeto_lei_azeredo/minuta.html

e outra disponibilizada no Petition Online:

http://www.petitiononline.com/veto2008/petition.html

O selo na lateral esquerda da página é parte da campanha produzida pela SaferNet. Ele, e outros selos e banners, podem ser obtidos nessa página. Procurem entender o que está acontecendo e participem. Muitas questões ligadas às liberdades individuais estarão ameaçadas caso esse projeto seja aprovado.

jul 062008
 

Algumas pessoas costumam me pedir para escrever algo que esclareça de maneira simples o que é o software livre. Resolvi colocar então aqui um texto que eu produzi há algum tempo sobre o assunto. Ele é voltado para pessoas leigas no assunto e foi escrito de maneira bem simples. Sugestões e correções são bem-vindas nos comentários… 


Um software, que também recebe o nome de programa, é um conjunto de instruções que indicam aos computadores como realizar determinadas tarefas. Assim, temos softwares para digitar texto, visitar páginas da Internet, fazer cálculos, entre outros. O problema é que geralmente esses programas são proprietários, ou seja, eles pertencem à empresa que os produziu. Isso significa que quando uma pessoa adquire um software ela está, na verdade, pagando pelo direito de usar esse programa, que continua sendo propriedade da empresa produtora. Por causa disso, esse programa não pode ser compartilhado com outras pessoas e nem alterado, mesmo se ele possuir erros que possam prejudicar o trabalho de alguém. Além disso, alguns softwares são proibidos de serem comercializados em determinados países do mundo, devido a várias questões, entre elas, embargo comercial. Por fim, temos também a questão da segurança. Não existe nenhuma garantia plena de que esses programas não possuam brechas (propositais ou não) em seu funcionamento que permitam, por exemplo, que a empresa produtora (ou algum associado dela) tenha acesso não autorizado aos computadores e dados dos seus usuários.

Com o software livre a situação é diferente. Eles podem ser usados para qualquer fim sem nenhum tipo de restrição, seja de país, organização política ou credo religioso. Podem ser distribuídos livremente por qualquer pessoa e todos podem estudar a sua estrutura, o que permite a qualquer um entender o seu funcionamento. Além disso, eles podem ser alterados à vontade, seja para serem adaptados a uma necessidade específica, ou mesmo para corrigir algum eventual erro.

Devido ao seu dinamismo, a manutenção dos softwares livres cria uma estrutura de comunidade muito interessante, onde indivíduos literalmente espalhados pelo mundo inteiro contribuem para a produção de um bem comum. A única condição que as pessoas devem respeitar é que, ao usarem ou modificarem esse tipo de programa, ele deve continuar plenamente disponível para todos. Ou seja, você não pode se "apropriar" de um software livre e torná-lo proprietário. Ele é livre e deve continuar assim.

Atualmente estão sendo produzidos milhares de programas que seguem essa filosofia, para os mais diversos fins. Desde alguns genéricos, como por exemplo, editores de texto, planilhas eletrônicas e navegadores de Internet, até outros bem específicos, como gerenciadores de acervos de bibliotecas ou de clínicas médicas. Hoje em dia, praticamente todos os softwares proprietários tem algum correspondente livre, sendo que as versões livres muitas vezes apresentam menos problemas e mais recursos que o similar proprietário. Existem até mesmo alguns sítios que mantém tabelas de equivalência entre softwares livres e proprietários, como o Open Source as Alternative, The Linux Alternative Project e The table of equivalents/replacements/analogs of Windows software in Linux. São todos em inglês, mas bem simples de serem consultados.

Obviamente, para que esse movimento continue ativo, é necessário que as pessoas contribuam com ele. Programadores podem aprimorar softwares já existentes ou criar novos. Pessoas com conhecimento de outros idiomas podem traduzir as interfaces. E mesmo se você não possui nenhuma dessa habilidades, pode contribuir, simplesmente usando os softwares livres, informando aos responsáveis os erros que você encontrar e difundindo a idéia do movimento entre seus conhecidos. É com a colaboração de cada um de nós que o software livre irá ganhar força e se tornar cada vez mais popular. Daí a importância de todos na difusão desse ideal.