MEC pisa na bola… de novo… (ou, como empurrar mais um serviço privativo pros professores)

Primeiro foi o anúncio da distribuição de tablets com Android para professores, produto esse que, para ser utilizado plenamente pelo usuário leigo, exige que a pessoa tenha uma conta na Google. Agora foi anunciado mais um acordo com outra empresa de tecnologia privativa: a Amazon.

O que vai acontecer é que os livros didáticos serão convertidos para o formato do Kindle e serão distribuídos pela Amazon utilizando a tecnologia Whispercast. E a empresa ainda sai posando de boazinha. Segundo notícias publicadas na Folha de São Paulo e na InfoExame “Amazon entrega de graça ao Brasil tecnologia para converter livro didático em digital” (não, não vou publicar os link porque me recuso a aumentar a visibilidade dessas publicações ordinárias, procurem pelo título que vocês chegam na reportagem).O título da reportagem já é maldoso e enganador. A Amazon não está “entregando” nada pra gente. Está simplesmente oferecendo o serviço sem cobrar nada. E alguém aí conhece alguma empresa que trabalha de graça??? Na verdade é o governo quem está entregando uma enorme base de dados de usuários para a empresa, a custo zero. E ainda forçando as pessoas a assinarem esse serviço, caso contrário elas não terão acesso aos livros. O festival de desinformação continua com a fala do diretor da Amazon.com.br: “Ele ressaltou que os educadores que utilizam o aplicativo gratuito de leitura Kindle conseguirão ler, destacar, fazer anotações e utilizar o dicionário diretamente nos livros didáticos, mesmo quando os tablets não estão conectados à internet.”. Existem diversos leitores de PDF que permitem fazer exatamente a mesma coisa. Ou seja, essa não é uma tecnologia específica do Kindle. Não é nem mesmo uma tecnologia exclusiva de e-book.

Tá difícil conseguir mais detalhes sobre como vai funcionar, mas se for igual ao modelo tradicional do Whispercast (que funciona nos EUA), o formato utilizado pelos livros é o do Kindle, que é proprietário e ainda tem suporte a DRM embutido. Ah, e um detalhe. Até onde eu sei, não é possível abrir um livro nesse formato em outro aparelho e/ou conta que não aquele(a) utilizado para baixá-lo (mas posso estar errado nisso, porque, como eu disse antes, não existem detalhes de como vai funcionar essa distribuição de conteúdo pelo MEC).

O pior disso tudo é que existe o formato ePub, que segue padrões abertos e permite a inclusão de conteúdo rico, inclusive interativo, utilizando HTML5 e JavaScript. E esses documentos não ficam presos ao dispositivo onde ele foi baixado. Pode ser livremente distribuído pra qualquer outro dispositivo. Quem quiser ver isso funcionando na prática, tem esse vídeo com uma palestra do Jomar Silva (e aqui os slides). E quem quiser brincar com isso, tem essa documentação detalhada (e em português) da IBM.

Ou seja, de novo, um órgão do governo caindo no canto da sereia do software privativo, que vem disfarçado de “inovação”, “simplicidade” e “gratuidade”. E quem vai pagar o pato no final são, de novo, os usuários.

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