Desinformação até no Marco Civil da Internet (ou, caramba!, pra todo lugar que você olha tem FUD!)

Gente, após essa indicação do @Actantes eu resolvi assistir o vídeo do tal professor do Mackenzie e fiquei horrorizado. Ele fala muita bobagem e eu fiquei tão incomodado que fiz um comentário no vídeo e também enviei uma mensagem para o Heródoto Barbeiro. A parte mais curiosa do vídeo é justamente no início, em que ele fala que se os dados fossem tratados todos iguais, seria um socialismo na Internet, em contraponto com o que deveria acontecer, que é uma república democrática. Essa fala é muito significativa porque mostra que ele defende que, em uma democracia, as pessoas deveriam ser tratadas de forma diferenciada, ou seja, as democracias deveriam perpetuar as diferenças sociais. Com isso, em uma única fala ele demonstra que: tem um alinhamento de direita e não tem a menor noção do que é socialismo e democracia, ao colocar esses termos como antagônicos.

E como essas nossas participações costumam "sumir" de redes às quais não controlamos (e a mensagem foi direto para o Heródoto e não como um comentário), publica abaixo minhas duas mensagens.

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Comentário no vídeo do YouTube:

Gente me desculpem, mas o professor fala MUITA bobagem. A fala dele é preconceituosa, ele não tem noção de como o Marco Civil foi construído e nem o que é socialismos/comunismo/democracia. Afinal de contas, ao afirmar que quando os dados são tratados de forma igual isso é socialismo e que isso não é uma república democrática. Isso quer dizer que em uma democracia as pessoas tem que ser tratadas de forma diferenciada? Ou seja, diferenças sociais são inerentes às democracias?
Neutralidade da rede NÃO é o que ele fala. Primeiro porque o acesso pleno à Internet só funciona por ela ser neutra (apesar dele achar que ela não é). Segundo porque ele confunde DADOS com SERVIÇOS. Se os provedores não pudessem dar tratamento diferenciado aos CLIENTES, não seria possível um provedor oferecer velocidades diferentes. Como disse acima, a neutralidade é no tratamento de DADOS e não de SERVIÇOS. Não se está regulando MERCADO. Estão se regulando questões técnicas. E mesmo se a discussão fosse de mercado, se concorrência fosse boa (como ele defende firmemente), teríamos o melhor serviço de telefonia celular do mundo, afinal de contas temos várias operadoras e esse é um mercado livre. É essa qualidade existe?

Por favor, gente, procurem saber o que é realmente neutralidade na rede antes de saírem repetindo as bobagens desse vídeo. Os ÚNICOS beneficiados com a quebra da neutralidade são os provedores de acesso à Internet. E todo mundo já conhece a qualidade desses serviços aqui no Brasil também…

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Mensagem enviada para o Heródoto

Prezado Heródoto,
Assisti agora (via YouTube) a entrevista sobre Marco Civil com o Professor do Mackenzie, Rodrigo Mezzomo. Falo de Belo Horizonte, MG (não consegui entrar com esse dado no formulário, não funcionou no meu navegador).

Desculpe-me, mas ela é péssima. Você fez as perguntas corretas (inclusive lhe parabenizo pelas suas colocações, muito bem feitas na entrevista), mas as respostas que o professor lhe deu foram bastante equivocadas.

Neutralidade na Internet NÃO é isso que ele define. Se os provedores realmente não pudessem dar tratamento diferenciado aos clientes, não existiriam hoje planos de velocidade diferenciada. A neutralidade da Internet refere-se aos DADOS e não aos SERVIÇOS. Inclusive existem empresas que defendem a neutralidade, como a gigante Netflix, afirmando que o modelo de negócios deles seria seriamente prejudicado caso a neutralidade não ocorra (ou seja, o contrário do que ele diz, ao afirmar que o fim da neutralidade acabaria com modelos de negócios).

Portanto gostaria de pedir, se fosse possível, que fosse feito um esclarecimento isento sobre essa questão, sem a necessidade de defender ou atacar o assunto, mas, simplesmente, explicar. Afinal de contas, opiniões divergentes são sempre bem vindas e existem pontos do Marco Civil que são passíveis de interpretação diferenciada. Mas a fala do professor não foi somente opinativa, foi desinformativa. Ele não exprimiu sua opinião sobre o assunto, ele distorceu os conceitos. E um jornal sério como o Record News deveria ter o cuidado de não propagar esse tipo de equívoco.

Um grande abraço e até mais.

Frederico

Quando a gente acha que chegou no fundo do poço… surge a Marcha da Família

Por favor, alguém fala pra mim que esse vídeo veio de uma realidade alternativa.

No início eu achei que fosse uma brincadeira. Mas aí eu vi que a coisa é séria… Tem tanta coisa bizarra no vídeo que nem fica até difícil comentar. Então, deixo por conta de vocês.

Claro que a fala do Bruno Toscano, organizador da marcha, sobre dono do mundo me fez lembrar imediatamente desse outro vídeo:

Será que a marcha vai marcar o retorno do King Size? Mistério….

MEC pisa na bola… de novo… (ou, como empurrar mais um serviço privativo pros professores)

Primeiro foi o anúncio da distribuição de tablets com Android para professores, produto esse que, para ser utilizado plenamente pelo usuário leigo, exige que a pessoa tenha uma conta na Google. Agora foi anunciado mais um acordo com outra empresa de tecnologia privativa: a Amazon.

O que vai acontecer é que os livros didáticos serão convertidos para o formato do Kindle e serão distribuídos pela Amazon utilizando a tecnologia Whispercast. E a empresa ainda sai posando de boazinha. Segundo notícias publicadas na Folha de São Paulo e na InfoExame “Amazon entrega de graça ao Brasil tecnologia para converter livro didático em digital” (não, não vou publicar os link porque me recuso a aumentar a visibilidade dessas publicações ordinárias, procurem pelo título que vocês chegam na reportagem).O título da reportagem já é maldoso e enganador. A Amazon não está “entregando” nada pra gente. Está simplesmente oferecendo o serviço sem cobrar nada. E alguém aí conhece alguma empresa que trabalha de graça??? Na verdade é o governo quem está entregando uma enorme base de dados de usuários para a empresa, a custo zero. E ainda forçando as pessoas a assinarem esse serviço, caso contrário elas não terão acesso aos livros. O festival de desinformação continua com a fala do diretor da Amazon.com.br: “Ele ressaltou que os educadores que utilizam o aplicativo gratuito de leitura Kindle conseguirão ler, destacar, fazer anotações e utilizar o dicionário diretamente nos livros didáticos, mesmo quando os tablets não estão conectados à internet.”. Existem diversos leitores de PDF que permitem fazer exatamente a mesma coisa. Ou seja, essa não é uma tecnologia específica do Kindle. Não é nem mesmo uma tecnologia exclusiva de e-book.

Tá difícil conseguir mais detalhes sobre como vai funcionar, mas se for igual ao modelo tradicional do Whispercast (que funciona nos EUA), o formato utilizado pelos livros é o do Kindle, que é proprietário e ainda tem suporte a DRM embutido. Ah, e um detalhe. Até onde eu sei, não é possível abrir um livro nesse formato em outro aparelho e/ou conta que não aquele(a) utilizado para baixá-lo (mas posso estar errado nisso, porque, como eu disse antes, não existem detalhes de como vai funcionar essa distribuição de conteúdo pelo MEC).

O pior disso tudo é que existe o formato ePub, que segue padrões abertos e permite a inclusão de conteúdo rico, inclusive interativo, utilizando HTML5 e JavaScript. E esses documentos não ficam presos ao dispositivo onde ele foi baixado. Pode ser livremente distribuído pra qualquer outro dispositivo. Quem quiser ver isso funcionando na prática, tem esse vídeo com uma palestra do Jomar Silva (e aqui os slides). E quem quiser brincar com isso, tem essa documentação detalhada (e em português) da IBM.

Ou seja, de novo, um órgão do governo caindo no canto da sereia do software privativo, que vem disfarçado de “inovação”, “simplicidade” e “gratuidade”. E quem vai pagar o pato no final são, de novo, os usuários.