Confusão, desinformação e superficialidade em defesa do software proprietário

Por indicação da acris do Texto Livre, eu cheguei nessa publicação do blog do evento Universidade, EaD e Software Livre, relativa a um artigo chamado “Software Livre: uma visão capitalista e sensata“. Claro que, com um título desses, eu tinha que dar uma olhada.  🙂

Comecei a ler o artigo e a cada parágrafo ficava mais estarrecido com a confusão de conceitos e desinformação. Ia escrever um comentário lá no blog mesmo. Mas o texto acabou ficando tão grande que resolvi publicar aqui na teia minha resposta e indicar o link nos comentários lá no blog. Peço desculpas caso ele tenha ficado maçante. Mas não queria deixar de argumentar os pontos colocados pelos autores. Para entender essa publicação, recomendo, primeiro, a leitura do artigo.

Em primeiro lugar, os autores afirmam que os defensores do software livre são “fanáticos” e afirmam que vão abordar as “vantagens e desvantagens” dos modelos livre e proprietário. Mas não é isso o que acontece. Ao contrário, assumem o mesmo papel que criticam e apontam somente as desvantagens do software livre (isso soa levemente como fanatismo pra mim).  🙂  Assim, logo de cara, o artigo peca pela contradição.

Os autores erram também no contexto histórico. Em primeiro lugar, dos “antigos nerds” que são citados no texto, somente Bill Gates, Steve Ballmer e Steve Jobs ficaram bilionários. Será que não tinha nenhum outro nerd na época? Ou (mais logicamente) os outros milhares de nerds foram excluídos pelo sistema capitalista? Esse argumento de que basta ser nerd e ter uma boa ideia para virar um milionário é mesma visão romântica de milhões de jovens brasileiros que sonham em jogar futebol para ganhar muito dinheiro. Mas quantos realmente se dão bem?

Outro erro histórico, Richard Stallman não criou “outra maneira de distribuição de software”. O que ele fez foi resgatar a forma como as coisas funcionavam antes de se iniciar o comércio de softwares. Pois é. Se os autores tivesse pesquisado um pouquinho mais, teriam visto que, nos primórdios da computação, os softwares eram, normalmente, trocados livremente entre as pessoas, justamente porque, como é inclusive falado no artigo, o que importava era o hardware. Logo, o que Stallman fez foi um resgate do modelo original de desenvolvimento de softwares, onde a informação fluia mais livremente.

Aí os autores caem na mesma armadilha de várias pessoas, ao afirmar que o software livre não tem mecanismos que “defendam o interesse do autor”. Ao contrário, o software livre garante muito mais esse direito, ao assegurar que caso qualquer pedaço de código de um software livre utilizado na construção de qualquer outro software não só torne o novo software livre, como também indique a origem daquele código. Não entendi muito bem o que eles quiseram dizer com “interesses do distribuidor”, mas por que alguém que não teve nenhum papel na criação do software deveria ter algum direito sobre ele? Essa é a lógica do software e da cultura proprietária, onde os “atravessadores” muitas vezes ganham mais dinheiro que os autores. E isso está errado.

Ocorre também uma confusão em determinado trecho do artigo, ao afirmar que “versões do UNIX que possuem seu código-fonte fechado e deve-se pagar para adquiri-las”. Por que isso está sendo usado como referência de software livre? Se o código é “fechado”, então ele não é livre. É proprietário.

Também utilizam um argumento que eu acho muito divertido, em relação ao custo. Afirmam que um dos “custos ocultos” do software livre é o treinamento de pessoal. Ora, por acaso as pessoas nascem sabendo como utilizar software proprietário? Será que nunca é necessário capacitar ninguém no uso desses softwares? E, por favor, não me venham com o argumento ridículo de que o software proprietário é mais simples. Se assim o fosse, eu, que trabalho com computadores desde 1988, não gastaria quase 5 minutos pra descobrir onde a Microsoft escondeu a opção de “Salvar como…” no Microsoft Office 2007. Isso deveria ser algo intuitivo. Portanto, treinamento é necessário para ambos os tipos de software. E ao afirmar que é necessário “manter uma equipe de programadores que adapte, desenvolva e atualize os softwares” fica bem claro que vocês não tem a menor ideia de como funcionam os softwares livres. Você só adapta programas se quiser. A maioria deles atende muito bem às demandas das pessoas. E a atualização desses softwares, ao contrário do softwares proprietários, não precisa de nenhum técnico para ser feita. Usando o GNU/Linux como exemplo, o próprio sistema avisa, com um ícone na área de notificação, toda vez que aparecer uma atualização para qualquer software instalado no sistema (ao contrário do Windows, que só avisa sobre as atualizações dos softwares da Microsoft). Aí, basta você clicar nesse ícone, digitar a senha de administração e clicar em um botão autorizando a atualização. O software conecta-se à Internet, baixa os pacotes necessários, instala e configura, sem te fazer nenhuma pergunta (a não ser em pacotes usados em máquinas servidoras). Ah, e sabe o mais legal? A não ser que você atualize o kernel do sistema ou o ambiente gráfico (que é coisa rara de acontecer) você nem precisa reiniciar a máquina. Pra que técnico? Não é bem mais simples que no Windows?  😉

No item segurança, os argumentos são tão divertidos que fica até difícil contra-argumentar. Beiram o bizarro. Em primeiro lugar, a clássica frase de que o software proprietário é “mais visado por hackers”? De onde vem essa afirmação? Existe alguma pesquisa sobre o assunto? Inclusive aqui cabe um parênteses. Os autores também não sabem o que é um “hacker”. Hackers não invadem sites nem atacam softwares. Hackers são pessoas com um grande conhecimento sobre determinado assunto e que estão sempre interessadas em aprender e compartilhar seu conhecimento. Quem provoca ataques são “crackers” e confundir os dois termos indica uma profunda ignorância da chamada “cultura digital”. Inclusive, ser considerado um hacker é um dos maiores elogios que uma pessoa da área de tecnologia pode receber. Mas voltando ao ponto, se o argumento de que o software proprietário é mais visado está ligado à ideia de que é mais utilizado, é sempre bom lembrar que o servidor web mais utilizado no mundo é o Apache, um software livre. Se ele é o mais utilizado (e, portanto, deveria ser o mais visado) porque tem menos brechas de segurança que os softwares proprietários equivalentes?

E nesse ponto surge um dos meus argumentos prediletos, de que, como o software livre tem o código aberto, fica mais fácil encontrar erros. Pois é, eu concordo com os autores. Fica tão mais fácil que ele são corrigidos muito mais rapidamente do que no software proprietário. Além disso, quando um erro é detectado, não é necessário esperar sair a nova versão do software (que é o que obrigatoriamente acontece no software proprietário). Você mesmo pode fazer a correção, caso queira. E aqui os autores caem em contradição de novo. Se é mais difícil encontrar os erros no software proprietário, então porque eles são mais visados? Não seria mais inteligente acertar um alvo mais fácil? E, como citado no artigo, em relação às extensões, é possível fazer algum código malicioso? Sim, com certeza. Mas aí voltamos ao argumento anterior de que esse código poderá ser detectado mais rapidamente. Isso, na verdade, já aconteceu, quando tentaram fazer um descanso de tela para o Gnome que tinha código malicioso. Mas o problema foi descoberto e destruído no mesmo dia. Enquanto isso, a Microsoft demora 7 anos pra corrigir uma brecha de segurança séria no Windows (isso pra citar somente um problema de uma empresa de software proprietário)…

Em relação às vantagens, de onde os autores tiraram a ideia absurda de que não existem empresas e pessoas que prestam assistência técnica? Existem várias empresas e pessoas físicas que prestam esse tipo de serviço. A diferença é que, no caso da assistência ao software livre, o dinheiro, ao invés de ser repassado para empresas multinacionais, fica no próprio país, alimentando a economia local. Portanto, uma boa pesquisa antes de fazer afirmações desse tipo é sempre muito saudável.  🙂   Além disso, os autores também defendem a ideia de que software proprietário tem “garantia”? Isso só vale para aqueles que você paga para ser desenvolvido (e olhe lá!). Os softwares de “caixinha”, como o Windows, inclusive, são bem claros na EULA (sabe aquele contrato que um monte de gente concorda sem ler? pois é, é ele), afirmando que não se responsabilizam por nenhum problema que o software possa gerar. Portanto, o software proprietário não oferece nenhuma garantia de que tudo vai funcionar corretamente. Chocante isso, né? E eu estou rindo muito aqui da afirmação de que “na maioria das vezes, o software proprietário traz consigo manuais detalhados que explicam como configurar e utilizar o software”. Na boa, se os autores realmente acreditam nisso, então eu acho que eles nunca leram um manual de software original. Além dos manuais geralmente serem ruins e pouco explicativos, na maioria das vezes eles nem vêm impressos mais: estão digitalizados, na própria mídia do software.

E a conclusão do artigo é a cereja do bolo. Em primeiro lugar, comparar software com Coca-Cola é assustador, especialmente se considerarmos que os autores são do Departamento de Computação. Coca-Cola é um produto consumível. Se você bebe o refrigerante ele acaba. Software não. Ele não acaba se você ficar usando. E você pode fazer quantas cópias quiser sem prejudicar o original. A lógica é completamente inversa. Quanto à receita da Coca-Cola, meus amigos, se a gente consegue saber a constituição de uma estrela que está a anos-luz da Terra, vocês acham que não é possível saber os componentes de um refrigerante? Saber a constituição química da Coca-Cola não é difícil. A questão não é a receita (supostamente) secreta. Mas o fato de direitos autorais. Você não pode simplesmente fabricar Coca-Cola e vender, por infração de direitos. Só isso. E em relação ao “brilhantismo” do Bill Gates, só se for relativo à sua habilidade em vender coisas (nisso ele realmente é muito bom). Uma boa pesquisada na Internet mostra que a Microsoft comprou praticamente todos os produtos que recebem a sua marca (inclusive a primeira versão do MS-DOS, que era o QDOS renomeado). Portanto, muito mais “geniais” são os desenvolvedores de software livre que, além de trabalharem pessoalmente em seus projetos (lembre-se de que Bill Gates era um executivo e não um programador da Microsoft), ainda dedicam o tempo livre para disponibilizar aplicações que todos nós podemos utilizar. Isso sim, é genialidade. É pensar coletivamente. É colaborar para o avanço do conhecimento mundial como um todo (lembre-se de que todo o conhecimento produzido com software livre pertence ao mundo inteiro). Portanto, não vejo nenhuma genialidade em pessoas como o Bill. Vejo apenas alguém ganhando a fama em cima do trabalho dos programadores da Microsoft.

E pra fechar com chave de ouro, uma afirmação terrorista de que para manter a “ordem social” precisamos ter os dois tipos de software. Como assim? O que significa essa tal “ordem social”? Ou perguntando mais além, será que tanto o modelo capitalista como a chamada “ordem social” atendem a todas as pessoas do planeta? Ou o que os autores defendem é um sistema excludente que permite que pessoas vivam em condições miseráveis porque alguns devem ser “melhores que os outros”? Eu, sinceramente, prefiro pensar em um cenário melhor para o mundo, onde valores como liberdade e igualdade de condições sejam mais valorizados que o dinheiro que elas carregam consigo.