No dia 7 de março desse ano, o Expresso, um jornal português fez uma denúncia de que havia encontrado 80 erros de português no Magalhães, um Classmate da Intel que está sendo distribuído nas escolas portuguesas (aos moldes do projeto UCA – Um Computador por Aluno, aqui no Brasil). Isso provocou um verdadeiro rebuliço por lá, especialmente na comunidade de software livre portuguesa. Por que? Os erros foram encontrados na tradução do GCompris para o português de Portugal. 

A coisa ganhou proporção, com direito à réplica da Caixa Mágica Software, que desenvolveu a distribuição Caixa Mágica, que vai nesses computadores e tréplica do Expresso, que pode ser vista nessa reportagem, juntamente com outros links sobre o assunto (de quebra, tem também uma nota sobre o assunto no BR-Linux).

Resultado? Foi feito o lançamento de uma nova versão do GCompris (que, coincidentemente, já estava agendada para ontem, há duas semanas) com as correções. Infelizmente o governo já havia demandado a retirada do GCompris de todos os computadores…

O que tivemos aqui foi uma sucessão de erros que serviram pra mostrar como as pessoas (e, especialmente algumas empresas) ainda não entenderam muito bem o modelo de desenvolvimento do software livre.

Primeiro, pelo pouco que eu acompanhei do processo do Magalhães em Portugal, o governo o anunciou como a oitava maravilha do mundo, um equipamento que iria revolucionar as escolas portuguesas. Resultado? Tornou-se um alvo fácil para críticas. Afinal, quanto maior o alarde, maior o estrago quando se encontra alguma falha. Segundo, a empresa Caixa Mágica Software não se deu ao trabalho de avaliar o que estava vendendo. Isso pode parecer uma afirmação forte, mas é exatamente isso. Uma distribuição GNU/Linux não é um produto único, monolítico. Ela é a reunião de dezenas (ou milhares) de softwares, cada um vindo de um lugar, com equipes e rotinas de desenvolvimento diferentes e que, na maioria da vezes, têm em comum somente o fato de funcionarem no GNU/Linux. Dá muito trabalho manter uma distribuição, especialmente se o seu objetivo é vendê-la, e, pior ainda, se ela for vendida para a área educacional, onde erros podem provocar um grande estrago. Por fim, os erros de português realmente existiam. O próprio responsável pela tradução assumiu isso na lista de discussão do GCompris. Mas é interessante destacar que esses erros já estavam lá há algum tempo (segundo o tradutor) e ninguém nunca se deu ao trabalho de corrigi-los. Nem a Caixa Mágica Software, que mantém a distribuição Caixa Mágica desde 2004.

O mais asustador é que essa não preocupação com o que se vende é mais comum do que se pensa. Aqui no Brasil existem vários casos de empresas que fazem isso – algumas ainda pior: desenvolvem distribuições para projetos do governo e, ao término do contrato, param de mantê-la, deixando os seus usuários na mão.

Essa (suposta) ausência de responsabilidade é um dos grande equivocos no qual os "vendedores de software livre" incorrem. Muitas dessas empresas ainda estão acostumadas com a lógica do software proprietário, em que o produto está (teoricamente) "pronto". O desenvolvimento do software livre é muito mais dinâmico. Empresas que querem trabalhar com ele, têm que levar isso em consideração. Infelizmente a maioria só vê os softwares livres como uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil e acabam cometendo o mesmo erro que a empresa portuguesa: vendem algo que não conhecem.

Ironicamente, esse evento serviu para mostrar que o software livre não é uma "caixa mágica". Ele é o produto do esfoço de várias pessoas. E como tal, está sujeito a erros, afinal de contas, os seres humanos têm essa mania de não serem perfeitos.

P.S.: Caso alguém encontre erros na tradução do GCompris para o nosso português, por favor, antes de publicar no jornal, entre em contato comigo para eu tentar corrigir, ok? 

  4 Comentários para “GCompris, o caso português e o desenvolvimento do software livre”

  1. Qual é o “modelo de desenvolvimento do software livre”? Muitos fazem, alguns vendem, e os problemas são culpa de quem faz, não de quem vende?

  2. Bom, não sei se entendi muito bem a sua pergunta, mas o que você falou é o que acontece atualmente em muitos casos. Empresas comercializam softwares livres sem nenhum tipo de contato com os desenvolvedores. Mais uma vez, isso é ilegal? Não. A maioria das licenças livres permite essa prática. Entretanto corre-se o risco de passar por uma situação similar ao que ocorreu com a Caixa Mágica.

  3. Olá, Frederico,

    Adoro os seus textos, porque são muito informativos e não deixam nenhum dos lados fora de questão… resultado da sua competência em diversas áreas, claro!
    Quanto ao escândalo do GCompris, eu fico, por um lado, até muito satisfeita de saber que as pessoas estão atentas à qualidade da documentação, o que não poderia ser diferente no caso dos softwares educativos. A documentação, como eu disse no meu blog (http://portugueslivre.blogspot.com/), é muito importante para a divulgação e bom uso de qualquer software, porque é a principal mediação com o usuário, não é?
    Temos tentado alertar os voluntários do Texto Livre (www.textolivre.com) para essa importância do suporte linguístico à documentação e para os autores de artigos para essa necessidade. Esperamos evitar muitos problemas como esse divulgado no seu texto, colaborando com nosso conhecimento da área de Letras ;)

    Abrs,
    Dani

  4. Olá Daniervelin,

    Em primeiro lugar, obrigado pelos elogios. Isso é um estímulo e tanto pra continuar escrevendo. :-)

    Em relação aos seus comentários sobre a qualidade da documentação (e eu acrescento, também da interface), concordo com você. Realmente todo o cuidado é pouco, especialmente porque é a “cara” do programa que está à mostra. Fico muito incomodado quando encontro algum softwares que não está bem traduzido. A vantagem do software livre é que pelo menos podemos corrigir esses erros quando nos deparamos com eles, não é mesmo?

    Um abraço e até mais.

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